Mapeamento carotídeo antes da cirurgia: por que homens e mulheres não devem ser avaliados da mesma forma

Dois exames, dois objetivos diferentes

O ultrassom das carótidas costuma ser pensado como um exame único. O trabalho publicado no Jornal Vascular Brasileiro em 2011 propõe algo diferente: dois estudos ecográficos independentes, feitos por examinadores distintos.

O primeiro é o exame diagnóstico, indicado a partir da clínica. Se a estenose for inferior a 50%, o caso segue em tratamento clínico e observação. Quando o paciente se torna candidato à cirurgia, aberta ou endovascular, entra o segundo exame: o mapeamento pré-operatório, que coleta informações detalhadas que não são necessárias para o diagnóstico, mas fazem diferença na mesa cirúrgica.

O que é medido no mapeamento

O protocolo inclui o percentual de estenose, a extensão da placa, o diâmetro da carótida interna distal, o diâmetro representativo da carótida comum e a distância entre a bifurcação e o lóbulo da orelha. Cada uma dessas medidas responde a uma pergunta cirúrgica concreta.

A extensão da placa orienta o tamanho da incisão da endarterectomia e a escolha prévia de materiais no tratamento endovascular. Os diâmetros das carótidas preparam a equipe para o desafio de artérias de calibre pequeno e orientam a seleção de filtros, balões e stents. A distância até o lóbulo da orelha indica onde fazer a incisão e alerta para uma bifurcação alta, que dificulta a exposição.

O que o estudo encontrou

Foram analisadas 500 bifurcações carotídeas, sendo 192 de mulheres e 308 de homens, com idade média de 72 anos em ambos os grupos. Todas as medidas foram maiores nos homens.

As estenoses mediram em média 70% nas mulheres e 72% nos homens. A prevalência de estenose crítica, na faixa de 90 a 99%, foi quase o dobro entre os homens: 14,3% contra 7,8%. As placas foram mais extensas nos homens, com média de 2,3 cm contra 1,9 cm, e 20,1% deles tinham placas de 3 cm ou mais, contra apenas 7,3% das mulheres.

A carótida interna distal mediu 4,9 mm nos homens e 4,6 mm nas mulheres. A carótida comum, 7,6 mm contra 7,1 mm. E a distância entre o lóbulo da orelha e a bifurcação foi de 5,9 cm nos homens contra 5,3 cm nas mulheres.

A leitura prática

Embora as bifurcações masculinas fiquem em geral mais distantes do lóbulo da orelha, foram as mulheres que apresentaram maior prevalência de bifurcação muito alta, com menos de 4 cm de distância, o que cria mais dificuldade de exposição cirúrgica. É o tipo de informação que só aparece quando os subgrupos são analisados separadamente.

Custo e disponibilidade

Os autores estimam que um algoritmo baseado em dois estudos ecográficos, um diagnóstico e outro pré-cirúrgico, representa economia de 70% a 90% em relação aos custos de exames radiológicos ou de ressonância magnética, com informação frequentemente mais prática para o planejamento dos detalhes da cirurgia.

Referência: Pontes SM, Barros FS, Roelke LH, Almeida MAT, Sandri JL, Jacques CM, Nofal DP, Salles Cunha SX. Mapeamento ecográfico da bifurcação das artérias carótidas extracranianas para planejamento cirúrgico: diferenças baseadas no gênero do paciente. J Vasc Bras. 2011;10(3):222-228.

 

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