Da suspeita ao protocolo
Quatorze anos depois do estudo que demonstrou a prevalência das varizes de origem pélvica, a mesma linha de pesquisa avançou para a pergunta seguinte: como investigar isso de forma organizada e reprodutível? O trabalho publicado no Journal of Vascular Surgery: Venous and Lymphatic Disorders em maio de 2024 propõe justamente esse protocolo.
O ultrassom com Doppler permite estudar todo o reservatório venoso infradiafragmático. O objetivo do estudo foi orientar e padronizar a investigação da origem pélvica do refluxo em mulheres com varizes de membros inferiores.
As quatro etapas do protocolo
A investigação proposta segue uma sequência: mapeamento venoso dos membros inferiores; abordagem transperineal e vulvar; abordagem transabdominal; e abordagem transvaginal. Cada etapa responde a uma pergunta diferente e nenhuma substitui a outra.
A abordagem transperineal localiza os pontos de fuga pélvicos, que são as conexões por onde o refluxo escapa da pelve para a perna. Os principais são o ponto perineal, o inguinal, o glúteo e o obturador. A abordagem transabdominal avalia as veias gonadais e afasta obstruções venosas, trombóticas ou não. E a transvaginal confirma a presença de varizes na região anexial.
O que o estudo comparou
Foram estudadas 44 pacientes com varizes de membros inferiores e pontos de fuga pélvicos, comparadas a 35 pacientes com varizes sem pontos de fuga, pareadas por idade. A idade mediana foi de 43 anos nos dois grupos.
Os resultados
A presença de varizes pélvicas ao ultrassom transvaginal foi de 86% no grupo com pontos de fuga, contra 31% no grupo controle. Os pontos de fuga perineais foram os mais prevalentes, encontrados em 35 pacientes, ou 79,5% do grupo, mais frequentes à direita e associados a varizes pélvicas bilaterais em 65,7% dos casos.
A recidiva de varizes foi relatada por 23 pacientes (52%) do grupo com pontos de fuga, contra 8 pacientes (23%) do grupo controle, diferença estatisticamente significativa. A queixa de dispareunia também diferenciou os grupos: 10 pacientes (23%) contra apenas 1 (2,9%).
O diâmetro mediano da veia gonadal esquerda à avaliação transabdominal foi de 6,70 mm no grupo com pontos de fuga e 4,60 mm no controle. Nas pacientes com varizes pélvicas, o diâmetro mediano dos pontos de fuga na janela transperineal foi de 4,05 mm, e as veias periuterinas mediram em média 8,71 mm à esquerda e 7,04 mm à direita.
A conclusão
A identificação dos pontos de fuga pelo mapeamento venoso demonstra a origem pélvica do refluxo e suas conexões com as varizes das pernas. Para um planejamento terapêutico adequado, os autores sugerem o protocolo completo de investigação, baseado no estudo transabdominal e transvaginal, para afastar obstruções venosas e confirmar a presença de varizes na região anexial.
Na prática, isso significa que a paciente com varizes recidivadas, dor pélvica crônica ou dispareunia merece uma investigação que vá além do mapeamento das pernas.
Referência: Barros FS, Storino J, Cardoso da Silva NA, Fernandes FF, Silva MB, Bassetti Soares A. A comprehensive ultrasound approach to lower limb varicose veins and abdominal-pelvic connections. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2024;12(3):101851.
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