Um documento feito por três sociedades
A atualização de 2023 foi elaborada em conjunto pelo Departamento de Imagem Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia, pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular. Ela revisa o documento de 2015 e tem como objetivo padronizar a interpretação dos exames em todo o país.
O Instituto Fanilda Barros integra a lista de autores da atualização, ao lado de nomes de referência em ultrassonografia vascular de várias regiões do Brasil.
O que se manteve
A ultrassonografia vascular segue recomendada como método de primeira escolha para a avaliação da doença arterial carotídea, sintomática ou assintomática. A avaliação deve incluir as carótidas comuns, internas e externas bilateralmente, em toda a sua extensão, além do tronco braquiocefálico.
A quantificação das estenoses continua sendo multiparamétrica, combinando critérios hemodinâmicos e anatômicos. A velocidade de pico sistólico permanece como o critério de maior acurácia, com a velocidade diastólica final e as razões de velocidades atuando como parâmetros complementares. As recomendações para graduar estenoses da carótida interna não devem ser aplicadas à carótida comum nem à externa.
O que mudou
A definição de placa carotídea passou a adotar a classificação da Sociedade Americana de Ecocardiografia de 2020, com ênfase na altura da placa e no aspecto focal ou difuso, em faixas de risco: abaixo de 1,5 mm, entre 1,5 e 2,4 mm e a partir de 2,5 mm.
A medida da espessura mediointimal continua não sendo recomendada como rotina na população geral. A análise da carga aterosclerótica e do volume de placa pela técnica tridimensional entrou como nova recomendação, e o volume total de placa, medido de 1,5 cm da carótida comum distal até 1 cm além da bifurcação, é apontado como fator preditor de eventos cardiovasculares futuros.
A higienização dos equipamentos ganhou recomendação formal, seguindo a classificação do procedimento. Os exames diagnósticos de carótida e transcranianos se enquadram como não críticos, exigindo limpeza superficial adequada do transdutor, do cabo e do teclado.
O contraste de microbolhas
Este é um dos avanços mais relevantes. O agente de realce de ultrassom permite diferenciar oclusão de estenose suboclusiva, avaliar dissecção, inflamação e stents, e, principalmente, identificar neovascularização no interior da placa, um marcador de vulnerabilidade.
As microbolhas são marcadores estritamente intravasculares, não sofrem metabolização hepática nem excreção renal e são eliminadas pela respiração, o que dispensa contraindicação em pacientes com insuficiência renal. A indicação para avaliação de neovascularização recebeu classe de recomendação I.
Seguimento após endarterectomia e stent
A atualização adota critérios específicos para reestenose depois da endarterectomia carotídea: pico sistólico acima de 300 cm/s, velocidade diastólica final acima de 125 cm/s e razão entre carótida interna e comum acima de 5 para estenoses superiores a 70%. O intervalo de vigilância recomendado é de 1, 3 e 12 meses após o procedimento.
Doppler transcraniano
Entraram como novas recomendações a investigação de microembolia silenciosa com aparelho dedicado e capacete de fixação, a avaliação da reserva vasomotora cerebral antes da endarterectomia e a monitorização perioperatória por no mínimo 90 minutos após o procedimento.
Referência: Albricker ACL, Freire CMV, Santos SN, Alcantara ML, Cantisano AL, Porto CLL, et al. Atualização da Recomendação para Avaliação da Doença das Artérias Carótidas e Vertebrais pela Ultrassonografia Vascular: DIC, CBR, SBACV 2023. Arq Bras Cardiol. 2023;120(10):e20230695.









