Síndrome TIPIC: quando a dor no pescoço não é o que parece

Uma condição rara e pouco lembrada

A sigla TIPIC vem de Transient Perivascular Inflammation of the Carotid Artery, ou inflamação perivascular transitória da artéria carótida. É uma condição rara, aparentemente inflamatória, cuja causa ainda não é conhecida. Estima-se prevalência em torno de 2,8% entre pessoas com dor cervical de início agudo, com discreto predomínio masculino e idade média de 48 anos.

O nome substituiu o termo antigo carotidinia. A evolução costuma ser benigna, com resolução dos sintomas em cerca de duas semanas, seja espontaneamente ou com anti-inflamatórios, corticoides ou ácido acetilsalicílico.

O caso descrito

Um paciente de 53 anos procurou atendimento com dor cervical unilateral progressiva, de início espontâneo, acompanhada de edema, vermelhidão local e grande sensibilidade à palpação. Ele não era tabagista e não tinha fatores de risco relevantes para aterosclerose. Havia realizado radioterapia cervical cerca de cinco anos antes, do lado oposto à queixa, e um ultrassom de rotina no ano anterior estava normal.

O que o exame mostrou

O novo estudo ultrassonográfico deu atenção especial aos tecidos perivasculares. Ao modo B, apareceu um acometimento extenso, hipoecogênico e homogêneo dos tecidos, englobando a parede arterial na altura da bifurcação carotídea e se estendendo à carótida interna proximal.

As velocidades estavam elevadas, com pico sistólico de 288 cm/s e velocidade diastólica final de 129 cm/s. A estenose local, medida no plano transversal, foi estimada em 74%, compatível com os dados de velocidade. O lúmen residual media 1,96 mm. A ressonância magnética confirmou o espessamento irregular com realce pelo contraste.

A evolução com o tratamento

O paciente recebeu corticoide por duas semanas, com melhora expressiva dos sintomas. O ultrassom repetido quatro meses depois foi decisivo para fechar o diagnóstico: a estenose caiu para cerca de 50%, o lúmen da carótida interna aumentou de 1,96 mm para 3,19 mm, o pico sistólico caiu de 288 para 132 cm/s e a velocidade diastólica final de 129 para 62 cm/s.

Os critérios diagnósticos

A literatura propõe quatro critérios maiores: dor aguda no trajeto da artéria carótida, podendo irradiar para a cabeça; infiltração perivascular excêntrica em exame de imagem; exclusão de outros diagnósticos, vasculares ou não; e melhora em até 14 dias, espontânea ou com anti-inflamatório. Há ainda um critério menor, que é a presença de placa mole intimal autolimitada.

Entre os diagnósticos diferenciais estão a dissecção aguda da carótida, a arterite de Takayasu, a arterite de células gigantes, arterite induzida por radiação, trombose da veia jugular, linfadenite, alterações da glândula submandibular e tumores.

A mensagem central

O caso reforça dois pontos. Primeiro, que a atenção aos tecidos perivasculares, e não apenas ao lúmen do vaso, muda o diagnóstico. Segundo, que o exame de controle depois do tratamento é parte do raciocínio diagnóstico, e não apenas uma formalidade.

Referência: Barros FS, Santos SN, Barros DS, Salles Cunha S, Albricker AL, Petisco ACG. Inflamação Perivascular Transitória da Artéria Carótida (TIPIC): Papel da Ultrassonografia Vascular. Arq Bras Cardiol Imagem Cardiovasc. 2023;36(2):e20230019.

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