Quando o calibre da veia muda a decisão cirúrgica
O tratamento das varizes envolve uma decisão que nem sempre é simples: quais veias precisam ser tratadas e quais podem ser preservadas. Essa escolha tem impacto direto no resultado estético, no risco de recidiva e até na disponibilidade da veia safena para uma eventual cirurgia cardíaca ou arterial no futuro.
Um estudo conduzido pela equipe do Angiolab, em Vitória, no Espírito Santo, e publicado no Journal of Vascular Surgery em novembro de 1999, ajudou a transformar essa decisão em algo mais objetivo. O trabalho foi apresentado no encontro anual do American Venous Forum, na Califórnia, e investigou uma pergunta prática: existe relação entre o diâmetro de uma veia perfurante e a presença de refluxo?
Como o estudo foi feito
Foram avaliadas 500 veias perfurantes em 116 membros de 78 pacientes, todos candidatos ao tratamento cirúrgico de varizes e classificados como classe clínica C2 pela classificação CEAP, ou seja, pacientes com varizes sem alterações graves de pele e sem úlcera.
O exame utilizado foi o ultrassom com Doppler colorido, realizado com o paciente em pé. As perfurantes foram mapeadas na face medial da coxa e nas faces medial, lateral e posterior da perna. O diâmetro foi medido em corte transversal, exatamente no ponto em que a veia atravessa a fáscia. Considerou-se refluxo significativo o fluxo reverso com duração superior a 0,5 segundo.
O que os números mostraram
Do total avaliado, 282 perfurantes (56,4%) apresentavam refluxo, e a grande maioria delas estava na face medial da panturrilha. As veias competentes mediam em média de 2,1 a 2,5 mm, enquanto as incompetentes variaram de 3,3 mm na panturrilha lateral a 4,7 mm na coxa medial.
O achado mais aplicável à prática clínica foi o valor de corte. Veias perfurantes com 3,5 mm ou mais apresentaram refluxo em mais de 90% dos casos, tanto na coxa quanto na perna. Do outro lado da escala, diâmetros abaixo de 2,2 mm na panturrilha indicaram ausência de refluxo em 92% dos casos, e na coxa todas as perfurantes com menos de 2,5 mm eram competentes.
Por que isso importa
A conclusão central é que um aumento de apenas 1 a 1,5 mm no diâmetro de uma perfurante da panturrilha, ou de cerca de 2 mm na coxa, pode ser a diferença entre um fluxo normal e um refluxo estabelecido. É uma margem pequena, e justamente por isso o exame precisa ser feito com técnica cuidadosa e por profissional experiente.
O estudo também levantou uma hipótese relevante: se a fonte principal do refluxo for eliminada, o diâmetro das perfurantes pode diminuir e as válvulas podem voltar a funcionar. Isso significa que nem toda perfurante alterada precisa necessariamente ser ligada no mesmo momento cirúrgico.
O papel do ultrassom vascular
O ultrassom com Doppler colorido permite avaliar o sistema venoso profundo, superficial e as perfurantes, identificar as fontes e os pontos de drenagem do refluxo, medir calibres com precisão e repetir o exame quantas vezes for necessário, sem risco para o paciente. É esse mapeamento que transforma o planejamento cirúrgico em uma decisão baseada em dados.
Referência: Sandri JL, Barros FS, Pontes S, Jacques C, Salles-Cunha SX. Diameter-reflux relationship in perforating veins of patients with varicose veins. J Vasc Surg. 1999;30(5):867-75.









