Por que a artéria radial entrou no cardápio cirúrgico
Por muito tempo a veia safena foi a principal opção de conduto na revascularização miocárdica. Depois vieram a artéria torácica interna e, nos anos 1970, as primeiras tentativas com a artéria radial, que inicialmente deram resultados ruins por causa do espasmo característico desse vaso.
Mudanças na técnica cirúrgica e o uso de bloqueadores de canais de cálcio para reduzir o vasoespasmo reativaram o interesse. A vantagem é clara: o calibre é semelhante ao da coronária, a constituição da parede é arterial e o tempo de perviedade tende a ser maior do que o da veia.
Mas existe uma pergunta antes da cirurgia
Retirar a artéria radial só é seguro se a mão continuar bem irrigada depois. A circulação da mão depende predominantemente do arco palmar superficial, cuja principal responsável é a artéria ulnar. Quando o arco é completo, há continuidade entre os ramos das duas artérias. Quando é incompleto, a retirada da radial pode comprometer a perfusão dos dedos. A literatura estima o arco completo em cerca de 78,5% das pessoas.
É essa combinação de perguntas, sobre anatomia e sobre função, que exige dois exames diferentes.
Como o estudo foi feito
Entre 1998 e 2000 foram estudadas 78 artérias radiais e 78 artérias ulnares de 39 pacientes candidatos à revascularização miocárdica, sendo 27 homens e 12 mulheres, com idades entre 42 e 84 anos.
O mapeamento com eco-Doppler colorido incluiu as artérias subclávia, braquial, radial e ulnar bilateralmente, avaliando doença aterosclerótica, perviedade e diâmetro interno em corte transverso. A fotopletismografia digital registrou as ondas de pulso em todos os dedos, em repouso e durante a compressão da artéria radial, simulando a retirada do vaso.
A artéria radial foi considerada apropriada quando reunia quatro condições: perviedade, ausência de aterosclerose na radial e na ulnar, diâmetro interno de 2,5 mm ou mais e presença de onda de pulso nos dedos durante a compressão da radial.
Os resultados
Das 78 artérias radiais estudadas, 66 (84,6%) foram consideradas apropriadas e 12 (15,4%) inadequadas. Entre os 39 pacientes, 24 (61,5%) foram operados usando a artéria radial, e em todos os casos a avaliação do cirurgião durante a cirurgia confirmou os achados pré-operatórios.
As contraindicações vieram de causas variadas: aterosclerose da radial em 2 casos, aterosclerose da ulnar em 3, oclusão da braquial em 2 e, em 5 artérias, ausência ou redução da onda de pulso em dois ou mais dedos durante a compressão, sugerindo arco palmar superficial incompleto.
O detalhe que justifica os dois exames
Essas cinco últimas artérias merecem atenção. Ao eco-Doppler colorido, a radial e a ulnar eram normais. Foi a fotopletismografia que revelou o problema funcional. Se apenas um dos exames tivesse sido feito, cinco pacientes teriam sido submetidos à retirada de um vaso cuja ausência a mão talvez não tolerasse.
Nenhum paciente da casuística apresentou fenômenos isquêmicos no pós-operatório, e a contraindicação de 12 artérias levou à mudança do planejamento cirúrgico em dois pacientes, por comprometimento bilateral.
A conclusão
A associação entre eco-Doppler colorido e fotopletismografia digital se mostrou eficaz na seleção da artéria radial. Um exame descreve a anatomia do vaso, o outro testa se a mão sobrevive bem sem ele. Juntos, oferecem segurança ao paciente e planejamento melhor ao cirurgião, evitando incisões desnecessárias, tempo cirúrgico adicional e complicações previsíveis.
Referência: Barros FS, Pontes SM, Taylor MAA, Roelke LH, Lima ML. Seleção da artéria radial para utilização como enxerto aortocoronário: avaliação pré-operatória com eco-color-Doppler e fotopletismografia digital e confirmação por avaliação cirúrgica. J Vasc Br. 2004;3(2):107-10.









