Rastreamento do aneurisma da aorta abdominal em Vitória: o que um estudo com 834 pessoas revelou

Uma doença que costuma ser silenciosa

O aneurisma da aorta abdominal tem uma característica que o torna especialmente perigoso: ele pode evoluir sem qualquer sintoma até o momento da ruptura. A mortalidade da ruptura é alta, enquanto a mortalidade do tratamento cirúrgico eletivo em serviços especializados fica em torno de 2,8%. A diferença entre esses dois cenários é, essencialmente, o diagnóstico feito a tempo.

Existe ainda um terceiro dado que sustenta o rastreamento: a expectativa de vida dos pacientes tratados se iguala à das pessoas da mesma faixa etária sem a doença. E o diagnóstico é feito por um exame não invasivo, de baixo custo e rápido.

Como o estudo foi conduzido

Trata-se de um estudo de prevalência com amostragem aleatória estratificada por faixa etária, sexo e classe socioeconômica, aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Espírito Santo e desenvolvido em parceria com o Departamento de Estatística da universidade e com o Programa de Saúde da Família da Prefeitura de Vitória.

A população foi recrutada pelas equipes do Programa de Saúde da Família, depois de uma campanha de conscientização sobre a doença. Os exames foram realizados nos postos de saúde dos setores censitários sorteados pelo IBGE e no laboratório vascular, entre dezembro de 2002 e junho de 2003. O único critério de exclusão foi idade abaixo de 60 anos.

Cada exame durou cerca de cinco minutos, com preparo mínimo: apenas dieta leve no dia anterior, sem medicamentos. Foi considerado aneurisma o diâmetro da aorta abdominal igual ou maior que 3 cm, medido em corte transverso no eixo anteroposterior.

Os resultados

Das 834 pessoas examinadas, 21 tinham aneurisma da aorta abdominal, o que representa prevalência de 2,5%. Quando a análise considerou apenas os homens, a prevalência subiu para 5,2%.

Entre os casos, 15 (71,4%) eram homens, 14 (66,7%) tinham entre 65 e 75 anos, 14 (66,7%) eram fumantes ou ex-fumantes e 12 (57,1%) tinham hipertensão arterial. Os aneurismas eram, em 95,2% dos casos, fusiformes e de localização infrarrenal, com diâmetro médio de 3,43 cm. Em 18 casos foi detectado trombo mural.

A comparação estatística entre quem tinha e quem não tinha aneurisma mostrou associação significativa com três fatores: sexo, idade e tabagismo. A hipertensão arterial, embora frequente no grupo com aneurisma, não alcançou significância estatística quando comparada à sua presença na população geral.

O que apareceu junto

Um achado relevante veio da investigação complementar. Entre os 14 pacientes com aneurisma que aceitaram estudar as carótidas, 86% tinham alguma doença carotídea, sendo 14% consideradas graves, com estenose igual ou superior a 70% ou oclusão. Nas artérias dos membros inferiores, 21,4% apresentavam lesões obstrutivas graves.

Isso reforça uma recomendação prática: quem tem aneurisma de aorta merece investigação carotídea e periférica, e quem tem doença carotídea merece investigação da aorta abdominal.

A recomendação dos autores

Nenhum aneurisma foi encontrado em pessoas com menos de 65 anos, o que sustenta as orientações que definem essa faixa etária como ponto de partida. Os autores incentivam o rastreamento em homens acima de 65 anos com história de tabagismo, e apontam que o rastreamento em mulheres ainda carece de mais estudos.

Referência: Barros FS, Pontes SM, Taylor MASA, Roelke LH, Sandri JL, Jacques CM, Zandonade E, e cols. Rastreamento do aneurisma da aorta abdominal na população da cidade de Vitória (ES). J Vasc Br. 2005;4(1):59-65.

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