Fístulas arteriovenosas dentro do trombo: um achado pouco conhecido na trombose venosa profunda

Um achado que só apareceu com o eco-Doppler colorido

Antes do eco-Doppler colorido, muita coisa que acontece dentro de um trombo simplesmente não era visível. O estudo publicado no Jornal Vascular Brasileiro em 2006 descreve três pacientes em tratamento de trombose venosa profunda nos quais o exame identificou algo raro: fístulas arteriovenosas dentro do próprio trombo e junto à parede da veia.

Como o achado foi identificado

As três pacientes foram encaminhadas ao laboratório vascular para avaliar recanalização ou progressão do processo trombótico. Em todas, o mapeamento colorido mostrou aliasing, ou seja, a mistura das cores do fluxo arterial e venoso, sinal de velocidade muito alta. O Doppler pulsado confirmou um fluxo venoso pulsátil, turbulento, com velocidades sistólica e diastólica elevadas, padrão típico de comunicação arteriovenosa.

Vale lembrar como é o fluxo venoso normal: fásico com a respiração, não pulsátil, e que aumenta com a compressão distal do membro. Um fluxo venoso pulsátil de alta velocidade é, portanto, um sinal de alerta.

Os casos

A primeira paciente, de 50 anos, desenvolveu trombose no membro inferior esquerdo após abdominoplastia. No sexto mês de acompanhamento, o exame revelou recanalização parcial da veia ilíaca externa com fluxo compatível com fístula arteriovenosa dentro do trombo, enquanto a artéria ilíaca mantinha fluxo normal.

A segunda, de 68 anos, mantinha edema e dor após quatro meses de anticoagulação oral. O exame mostrou recanalização mínima da ilíaca externa e fístulas ao redor de todo o trombo. A terceira, de 49 anos, tinha história de trombose ileofemoral e poplítea havia cinco anos, com achados semelhantes em ilíaca externa, femoral comum e femoral superficial.

Duas dessas pacientes foram submetidas a arteriografia, que confirmou microfístulas arteriovenosas dentro do trombo e adjacentes à parede da veia parcialmente trombosada, com enchimento venoso precoce na fase tardia.

O que pode explicar o fenômeno

O mecanismo ainda não está esclarecido. A hipótese mais aceita é a neovascularização como resposta ao processo inflamatório desencadeado pela trombose. Alguns autores defendem que a recanalização da veia trombosada depende mais dessa neoangiogênese do que da simples lise ou absorção do trombo.

A recomendação prática

Os autores recomendam incluir a pesquisa de fístulas arteriovenosas no protocolo de estudo pelo eco-Doppler colorido em casos de trombose aguda, crônica, superficial ou profunda. É um achado que passa despercebido se não for procurado.

Referência: Barros FS, Pontes SM, Silva WP, Prezotti BB, Sandri JL. Identificação pelo eco-Doppler colorido de fístula arteriovenosa na trombose venosa profunda. J Vasc Bras. 2006;5(3):224-8.

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