Varizes de origem pélvica: os padrões que aparecem nas pernas e ajudam a identificar a fonte do refluxo

Resumo do estudo

Estudo publicado no Journal of Vascular Surgery: Venous and Lymphatic Disorders em julho de 2026, com participação do Instituto Fanilda Barros, analisou 62 membros inferiores de 49 mulheres com refluxo venoso de origem pélvica. Os padrões mais frequentes foram veias conectadas à safena magna (29%), veias paralelas à safena na face medial da coxa (26%) e varizes na face posterior da coxa (19%). Também foram identificadas conexões com o nervo ciático (10%) e com linfonodos (8%). O trabalho recebeu o primeiro prêmio de resumos no European Venous Forum de 2025 e conclui que reconhecer esses padrões durante o mapeamento venoso ajuda a selecionar quem precisa de investigação pélvica completa.

 

A terceira etapa de uma linha de pesquisa

Este artigo fecha um percurso de pesquisa que começou em 2010, com o estudo que mostrou a prevalência de varizes de origem pélvica entre mulheres encaminhadas para mapeamento venoso, e seguiu em 2024, com o protocolo completo de ultrassom para confirmar essa origem. A pergunta agora é outra: como esse refluxo se distribui nas pernas, e que desenho ele deixa?

O trabalho foi apresentado no 25º encontro anual do European Venous Forum, em Cracóvia, na Polônia, em junho de 2025, e recebeu o primeiro prêmio de resumos do evento.

Por que isso importa

A insuficiência venosa pélvica continua sendo uma causa subdiagnosticada de varizes nas pernas, principalmente em mulheres com varizes atípicas ou recidiva sem explicação após o tratamento. Quando o mapeamento venoso olha apenas para as safenas, o refluxo que vem da pelve passa despercebido. Um estudo citado pelos autores identificou o refluxo pélvico como fator contribuinte em 25,6% das recidivas de varizes, número que chega a 31,5% entre mulheres com mais de um parto.

Ao mesmo tempo, investigar a pelve em todas as pacientes seria impraticável. A proposta do estudo é oferecer um critério de seleção: se o desenho das varizes nas pernas sugere origem pélvica, a investigação completa está indicada.

Como o estudo foi feito

Foram avaliadas 49 mulheres, totalizando 98 membros, dos quais 62 tinham varizes com pontos de fuga pélvicos confirmados ao ultrassom e entraram na análise final. Todos os exames foram feitos pelo mesmo examinador, com o paciente em pé, usando Doppler colorido e espectral e manobra de Valsalva. O exame completo levou em média cerca de 60 minutos por paciente.

A idade média foi de 42 anos, 95% dos membros eram classe CEAP C2, 69% das pacientes relatavam dor nas pernas, 31% dor pélvica e 29% dispareunia. O ponto de fuga mais frequente foi o perineal (65%), seguido do inguinal (18%) e do glúteo (11%).

Os padrões encontrados

O padrão mais comum foi o de veias conectadas à safena magna ao longo da coxa e da perna, em 29% dos membros. Em seguida vieram as veias correndo paralelas à safena na face medial da coxa (26%), mais associadas ao ponto de fuga perineal, e as varizes na face posterior da coxa (19%), mais associadas ao ponto glúteo.

Varizes restritas à região perineal apareceram em 15% dos casos. Varizes na face anterior da coxa (8%) se relacionaram principalmente ao ponto de fuga inguinal e às recidivas após safenectomia. A conexão com a safena parva foi a menos frequente, em 5%.

Conexões com o nervo ciático e com linfonodos

Dois achados chamam atenção. Em 10% dos casos, as veias varicosas estavam em relação direta com o nervo ciático, ao longo da face posterior e lateral da coxa. Ao ultrassom, eram veias finas, de 2 a 4 mm, com trajeto espiral dissecando as fibras do nervo, que apresentava bainha espessada.

A relevância clínica é que esse padrão pode causar dor com irradiação do tipo ciática, facilmente confundida com problema de coluna ou musculoesquelético. Os autores recomendam investigação mais detalhada em pacientes com varizes abaixo da prega poplítea e lateralmente à safena parva.

Em 8% dos casos foram identificadas conexões venosas com a rede linfática, mais associadas ao ponto de fuga inguinal e às recidivas, visíveis ao ultrassom como canais tortuosos no hilo dos linfonodos inguinais.

A conclusão

Embora a safena magna esteja frequentemente envolvida, as varizes não safenas têm papel mais proeminente no padrão de refluxo de origem pélvica. Reconhecer como esse refluxo se distribui na perna permite que o mapeamento venoso procure ativamente esses padrões e indique a investigação pélvica quando necessário, com potencial de reduzir tratamentos incompletos e recidivas.

Limitações

Estudo de centro único, com amostra relativamente pequena e derivada de uma coorte já publicada, o que pode introduzir viés de seleção. Determinantes sociais de saúde não foram analisados, já que o foco foi anatômico.

Principais números do estudo

  • 49 mulheres e 62 membros com pontos de fuga pélvicos confirmados
  • Ponto de fuga perineal em 65% dos membros, inguinal em 18% e glúteo em 11%
  • Conexão com a safena magna em 29%, trajeto paralelo à safena na coxa medial em 26%
  • Varizes na face posterior da coxa em 19% e restritas ao períneo em 15%
  • Relação com o nervo ciático em 10% e com linfonodos em 8%
  • Primeiro prêmio de resumos no European Venous Forum de 2025

Perguntas frequentes

O que são varizes de origem pélvica?

São varizes nas pernas alimentadas por refluxo que vem de veias da pelve, e não das safenas. O refluxo chega à perna por pontos de fuga pélvicos, como o perineal, o inguinal, o glúteo e o obturador.

Como suspeitar que as varizes vêm da pelve?

O desenho das varizes ajuda. Veias na face posterior da coxa, na face medial paralelas à safena, restritas ao períneo ou na face anterior da coxa após safenectomia são padrões associados à origem pélvica.

Varizes pélvicas podem causar dor parecida com dor ciática?

Sim. Em 10% dos casos do estudo, as varizes tinham relação com o nervo ciático, o que pode gerar dor irradiada facilmente confundida com problema de coluna.

Toda paciente com varizes precisa de investigação da pelve?

Não. O estudo propõe usar os padrões nas pernas como critério para selecionar quem precisa de investigação pélvica completa, em vez de rastrear todas as pacientes.

Referência

Storino J, Barros F, Oliveira NC. Anatomical patterns of pelvic venous reflux to the lower limbs. J Vasc Surg Venous Lymphat Disord. 2026;14:102507. DOI: 10.1016/j.jvsv.2026.102507.

 

Leia o artigo completo

Baixe o artigo original em PDF, publicado em Journal of Vascular Surgery: Venous and Lymphatic Disorders. Acesso aberto, com os créditos dos autores e do periódico preservados.

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