Lipedema é uma doença inflamatória? O que o ultrassom, a termografia e a biópsia mostraram juntos

Muito além do acúmulo de gordura

O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo que afeta quase exclusivamente mulheres, com acúmulo simétrico de gordura nos membros, dor à palpação, facilidade para hematomas e desproporção corporal. Por essas características, ainda é frequentemente confundido com obesidade ou linfedema.

Nos últimos anos, a pesquisa mudou o entendimento da doença. Diversos estudos mostraram que o lipedema não é apenas um depósito de gordura, mas uma condição em que líquido, gordura e fibrose interagem dentro de um microambiente inflamatório. Um dos achados centrais é a chamada microangiopatia inflamatória: aumento da densidade de capilares, espessamento da parede dos vasos, formação de novos vasos e infiltração de células inflamatórias no tecido afetado.

A pergunta que o estudo publicado no JVS-Vascular Insights em 2026 procurou responder foi direta: essas alterações microscópicas podem ser vistas por exames de imagem não invasivos?

Como o estudo foi feito

Foram incluídas 12 mulheres com diagnóstico clínico de lipedema nos membros inferiores, tipos III e IV, estágios II e III, independentemente do índice de massa corporal. Pacientes com linfedema primário, linfedema secundário ou lipolinfedema foram excluídas. O protocolo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo.

Todas passaram pelo mesmo protocolo em quatro etapas: exame clínico, ultrassom de alta resolução com Doppler e imagem de microfluxo (MFI), termografia infravermelha e biópsia de pele e tecido subcutâneo com punch de 6 mm na face lateral da coxa. Os exames de ultrassom foram realizados por um único médico vascular, com parâmetros padronizados, para reduzir a variabilidade.

O que o ultrassom mostrou

No modo B, o ultrassom demonstrou aumento da espessura do subcutâneo, desorganização da rede de tecido conjuntivo e espessamento e descontinuidade da fáscia superficial. O Doppler colorido convencional não revelou vascularização significativa.

A diferença apareceu com a imagem de microfluxo, tecnologia capaz de captar fluxos de velocidade muito baixa. Ela identificou pequenos vasos ao redor dos septos de tecido conjuntivo, e a análise espectral confirmou um padrão de fluxo arterial de baixa resistência, com índice de resistência abaixo de 0,7, em todas as pacientes.

O que a termografia mostrou

A termografia infravermelha registrou diferenças térmicas regionais entre 0,5 e 0,7 °C, e todas as pacientes apresentaram amplitude térmica acima de 0,3 °C, indicando perfusão alterada. O padrão foi heterogêneo: áreas mais quentes, compatíveis com inflamação e hiperemia, alternando com áreas mais frias, sugestivas de estase microvascular e fibrose.

O que a biópsia confirmou

Das 13 amostras coletadas, 10 foram analisadas. Todas mostraram hiperplasia do tecido adiposo, com adipócitos de tamanhos variados. O aumento da densidade capilar e a proliferação de mastócitos apareceram em 60% das amostras, a citoesteatonecrose em 30% e fibrose leve em 10%.

O ponto mais relevante veio da correlação. As pacientes com fluxo de baixa resistência e maiores gradientes térmicos foram as que apresentaram mais densidade capilar e mais mastócitos na biópsia da mesma região. Ou seja, o que a imagem mostrava correspondia ao que o microscópio confirmava.

O que isso significa

Os achados reforçam a ideia do lipedema como uma doença vasculofascial, e não puramente adiposa. O ultrassom com microfluxo e a termografia funcionam de forma complementar: o primeiro captura a morfologia e a dinâmica dos microvasos, a segunda mostra as consequências térmicas da perfusão alterada.

Os autores deixam claro que esses parâmetros devem ser entendidos como possíveis biomarcadores de atividade da doença, e não como ferramentas de rastreamento. Eles podem ajudar a diferenciar o lipedema de condições semelhantes e a acompanhar sua evolução em estudos futuros.

Limitações

Trata-se de uma série de casos com amostra pequena e sem grupo controle, o que impede análise estatística inferencial e limita a generalização. O examinador não foi cegado para o diagnóstico, uma escolha necessária para garantir que a região examinada fosse a mesma da biópsia. Os autores defendem estudos prospectivos, controlados e multicêntricos, com estratificação por estágio clínico.

Principais números do estudo

  • 12 mulheres com lipedema tipos III e IV, estágios II e III
  • Índice de resistência abaixo de 0,7 ao microfluxo em todas as pacientes
  • Diferenças térmicas regionais de 0,5 a 0,7 °C na termografia
  • Aumento da densidade capilar e de mastócitos em 60% das amostras analisadas
  • Citoesteatonecrose em 30% e fibrose leve em 10%
  • Correlação descritiva entre achados de imagem e histologia na mesma região

Perguntas frequentes

O lipedema é uma doença inflamatória?

As evidências atuais apontam que sim. Este estudo encontrou sinais de microangiopatia inflamatória ativa, com aumento de capilares e de mastócitos no tecido, confirmados por biópsia e correlacionados com achados de imagem.

O ultrassom comum consegue mostrar a inflamação do lipedema?

O Doppler colorido convencional não mostrou vascularização significativa. Os pequenos vasos só foram identificados com a imagem de microfluxo (MFI), tecnologia que capta fluxos de velocidade muito baixa.

Para que serve a termografia no lipedema?

A termografia mostra diferenças de temperatura na pele que refletem alterações de perfusão. No estudo, áreas mais quentes corresponderam a inflamação e áreas mais frias a estase microvascular e fibrose.

Esses exames servem para diagnosticar lipedema?

Os autores propõem esses parâmetros como possíveis marcadores de atividade da doença, e não como ferramentas de rastreamento. O diagnóstico continua sendo clínico, com os exames como complemento.

Referência

Barros FS, Oliveira NC, Lyra PH, Magalhães LM, Jarske RD. Correlation between imaging studies and histological analysis in the assessment of microvascularization in lipedema. JVS-Vascular Insights. 2026;4:100412. DOI: 10.1016/j.jvsvi.2026.100412.

 

Leia o artigo completo

Baixe o artigo original em PDF, publicado em JVS-Vascular Insights. Acesso aberto, com os créditos dos autores e do periódico preservados.

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