Lipedema nos braços: o estudo que definiu os pontos de medida e os valores de corte no ultrassom

A parte do lipedema de que quase ninguém fala

O lipedema é uma doença crônica e progressiva descrita formalmente em 1951, caracterizada pelo acúmulo desproporcional e simétrico de tecido adiposo, que afeta predominantemente mulheres. A prevalência estimada chega a 11% da população feminina, número provavelmente subestimado pela dificuldade de reconhecimento clínico e pela confusão frequente com obesidade e linfedema.

A literatura descreve cinco padrões de distribuição anatômica, e cerca de 30% das pacientes apresentam acometimento dos membros superiores, o chamado tipo IV. Mesmo assim, quase toda a produção científica sobre imagem no lipedema se concentrou nas pernas. Os braços ficaram sem critérios padronizados.

Foi essa lacuna que o estudo publicado na Phlebology em 2026 se propôs a preencher.

Como o estudo foi feito

Trata-se de um estudo transversal caso-controle com 102 mulheres: 51 com diagnóstico clínico de lipedema nos membros superiores e 51 controles, pareadas por faixa etária e com perfil antropométrico semelhante. O recrutamento aconteceu entre janeiro e junho de 2025, em consultas conduzidas por cirurgiões plásticos, angiologistas e cirurgiões vasculares no Brasil. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo.

A classificação clínica inicial foi feita por cirurgiões plásticos com experiência em lipedema e depois revisada pelos especialistas vasculares que realizaram os exames, todos titulados pela Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e pelo Colégio Brasileiro de Radiologia.

A padronização do exame

Este é o coração do trabalho. A espessura do subcutâneo foi medida perpendicularmente à pele, da junção dermoepidérmica até a fáscia profunda, aplicando apenas a pressão mínima necessária para manter o contato acústico, justamente para não comprimir o tecido e falsear a medida. As pacientes ficaram sentadas, com o membro relaxado, padronizando a tensão do tecido.

Foram definidos seis pontos anatômicos em cada membro: P1, antebraço dorsal, 6 cm acima do processo estiloide da ulna; P2, antebraço dorsal, 6 cm abaixo do cotovelo; P3, braço posterior, 10 cm acima do olécrano; P4, braço posterior médio, 10 cm abaixo da linha axilar posterior; P5, braço posterior, 6 cm abaixo da linha axilar posterior; e P6, braço anterior, 6 cm abaixo da linha axilar anterior.

O que os números mostraram

A espessura do subcutâneo foi significativamente maior no grupo com lipedema em todas as regiões avaliadas. E, o mais importante, essa diferença se manteve independentemente do índice de massa corporal. Nas mulheres com IMC abaixo de 30, todas as regiões mostraram diferença estatística. Isso indica que a alteração não decorre apenas do excesso de peso, mas reflete um fenótipo tecidual próprio da doença.

O quadro clínico também separou claramente os grupos: hematomas recorrentes em 58,8% contra 23,5%, edema em 56,9% contra 13,7% e dor em 66,7% contra 15,7%. O histórico familiar positivo apareceu em 45,1% das pacientes com lipedema, contra menos de 2% no grupo controle.

Os valores de corte propostos

A análise por curvas ROC identificou boa acurácia em quatro dos seis pontos. O melhor desempenho ficou com a região média do braço posterior, o ponto P4, com área sob a curva de 0,74, sensibilidade de 82,4% e valor de corte acima de 11,4 mm.

Os demais cortes foram: acima de 2,5 mm no antebraço dorsal distal, acima de 3,7 mm no antebraço dorsal proximal e acima de 8,7 mm no braço posterior distal. Os pontos P5 e P6 tiveram acurácia menor e são indicados como parâmetros complementares, úteis para acompanhar a evolução ou a resposta ao tratamento.

Além da espessura

O exame também revelou alterações morfológicas características: desorganização das fibras de tecido conjuntivo, ruptura de septos e áreas nodulares hiperecogênicas, resultando em uma ecotextura heterogênea. Vale registrar que os nódulos, embora presentes, não são patognomônicos da doença.

O Doppler de alta sensibilidade identificou aumento da microvascularização no subcutâneo lipedematoso, que não era detectável ao Doppler colorido convencional, com padrão de fluxo arterial de baixa resistência.

Como interpretar esses números

Os autores são explícitos em um ponto que merece destaque. Os valores de corte priorizaram sensibilidade, aceitando especificidade moderada, em torno de 50%. Isso significa que eles funcionam bem como ferramenta de rastreio, e não como critério diagnóstico isolado.

O ultrassom entra como um parâmetro objetivo dentro de uma avaliação mais ampla, que inclui anamnese detalhada e exame físico. O ganho está em reduzir o subdiagnóstico justamente na região em que o acometimento costuma passar despercebido.

Limitações reconhecidas

O desenho transversal não permite avaliar mudanças ao longo do tempo nem resposta terapêutica, e a ultrassonografia é operador-dependente, ainda que os pontos anatômicos e os parâmetros técnicos tenham sido rigorosamente padronizados. Os autores apontam a necessidade de estudos multicêntricos futuros, incorporando elastografia, análise microvascular avançada e técnicas tridimensionais.

Referência: Barros FS, Tavares IR, Frasson PHL, De Nadai ACC. Ultrasound criteria for upper extremity lipedema diagnosis. Phlebology. 2026. DOI: 10.1177/02683555261475099.

 

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